FAZENDO A DIFERENÇA

Eugênio Mussak
A história, a lógica, a matemática, a física e todas as outras ciências dizem a mesmíssima coisa: um simples gesto seu pode ser a gota d’agua. 
Mergulhei de cabeça no tema e cheguei à conclusão que ações individuais contam sim, e muito, apesar da confortável observação de que “uma andorinha sozinha não faz verão”, que é irmã de outra, a “de nada adianta eu fazer minha parte se ninguém colabora”. Ou, ainda, “ninguém vai notar se eu cometer esta pequena infração” (versão luxuosa do “esconder a sujeira embaixo do tapete”).
Creio que encontrei pelo menos dois motivos para justificar minha conclusão. Vamos ao primeiro.  
São as ações individuais que desencadeiam as ações coletivas, que se transformam em comportamento generalizado. 
Sabemos que a humanidade vive em permanente estado de mudança. Comportamentos, valores, tecnologias, ética e moral, tudo que está relacionado com a vida do homem em sociedade tende a mudar em uma velocidade cada vez maior. O século XX é o século de toda a História em que mais mudanças ocorreram. E é nesse ponto que surge uma pergunta interessante: quem muda primeiro, o indivíduo ou a coletividade? 
Se aceitarmos que o coletivo muda antes, explicamos facilmente as mudanças de comportamento de cada um de nós. Podemos dizer que o ser humano não gosta de ser diferente, em função do desconforto que isso provoca. Assim, tendemos a acompanhar a mudança do geral e, portanto, a mudança do individual deve-se à mudança do coletivo. 
Mas, e a mudança do coletivo, deve-se a quê? 
Não conseguimos explicar como é que o coletivo muda sem aceitar que haja um indivíduo para iniciar o processo. Ora, alguém, em algum instante, dá o pontapé inicial. Toda mudança do coletivo nasce de uma ação individual, que é absorvida pelo conjunto sem ser percebida – a não ser em poucas exceções. É por isso que ações individuais contam. Porque podem se transformar em ações coletivas. Mas, para que isso aconteça há pelo menos três pressupostos: a coragem, a persistência e a relevância. 
Coragem porque o Homem, por princípio biológico, é um ser resistente a mudanças. Nosso instinto é o de resistir a toda atividade que consuma energia – até caminhar, se fosse possível. Mudar um comportamento exige, sim, uma dose considerável de coragem, pois quem muda está indo contra uma condição estável. Mudanças incomodam, pois exigem esforço pessoal de desacomodação. 
Persistência porque as mudanças comportamentais não ocorrem de uma hora para outra. São incutidas através da repetição do estímulo. Você não assume um modismo como comportamento, a não ser que o mesmo seja persistente, quando então deixa de ser apenas modismo. 
Relevância porque a coragem e a persistência serão toleradas e aceitas se o que se está propondo faça sentido, seja ético e moral. Propostas irrelevantes são as ilógicas ou as injustas, e só podem ser impostas pela força – como, aliás, aconteceu e continua acontecendo nos regimes totalitários de países, empresas, escolas ou famílias. Só que nestes casos o costume não persiste por muito tempo: ele acaba sendo substituído pelo estímulo de um membro da coletividade, alguém dotado de coragem, persistência e relevância. 
Usando o mais simples dos exemplos, se você vive em um lugar onde as pessoas cultivam o habito de jogar pequenos lixos na rua, como papéis de bala e tocos de cigarro, você tem duas opções: entra no jogo do geral ou assume uma atitude individual de não sujar a rua. 
Se você opta pela segunda, conseguirá, de acordo com as estatísticas, contaminar pelo menos uma pessoa. E a partir de então, serão duas a contaminar as demais e assim sucessivamente, até mudar o comportamento do grupo inteiro ou de sua maioria. Nesse caso, estiveram presentes a coragem de fazer diferente, a persistência para resistir à tendência à acomodação coletiva e a relevância, pois é óbvio que a higiene é um comportamento louvável. 
Se a situação fosse invertida (você com o hábito de jogar lixo em um ambiente limpo), não conseguiria se impor: a coragem e a persistência não venceriam sem a relevância. 
No reino da sincronicidade 
Um dos ensaios mais instigantes publicados por Jung (Carl Gustav, 1875–1961) recebeu o nome de “Sincronicidade: o Princípio das Conexões Acausais”. Trata do fato de que várias ações isoladas e simultâneas são encontradas com alguma freqüência, sem que haja ligação de causa entre elas. (Isso nos permite dar um salto além da teoria de que alguém, em algum instante, dá o pontapé inicial.) 
Quando duas pessoas têm a mesma conduta porque estiveram em contato com o mesmo tipo de estímulo, ou causa, ocorre uma “conexão causal”, e a coincidência entre as condutas será facilmente justificada. Mas quando não há relação entre as causas que provocaram as condutas isoladas, falamos de “conexão acausal” É a “ligação pela significação”, como dizia Jung. 
Na prática, encontramos com freqüência ações individuais que parecem sincrônicas pela semelhança, mas que encontram como causa, quem sabe, apenas o amadurecimento da humanidade. Isso proporciona o surgimento, aqui e acolá, de indivíduos que não se conhecem mas chegam juntos ao mesmo lugar, ou seja à mesma ação individual. Há polêmica a respeito da autoria de várias invenções, como a do avião, do rádio e da guitarra elétrica, e descobertas como a do vírus da AIDS, provavelmente por conta desse fator. 
Voltando o filme, disse que encontrei dois motivos para acreditar que ações individuais contam. Vamos ao segundo motivo, que pode ser até mais relevante. 
Ações individuais são respostas ao estado de consciência do indivíduo, tendo como pressuposto atender às suas próprias demandas morais. 
Em outras palavras, as pessoas adultas, no sentido intelectual, emocional e moral, buscam atender a si mesmas e não dependem de agradar a outros nem de serem imitadas para encontrar a justificativa de seus atos. Fazem o que lhes parece melhor e certo. Se conseguirem contaminar os outros, ótimo. Mas têm, pelo menos, a certeza de estarem fazendo sua parte. 
É interessante a visão kantiana (Immanuel Kant, 1724–1804) de que o Homem, mesmo na idade adulta, continua em sua menoridade se ainda depender da direção de outro indivíduo, ou da massa, para construir seu próprio entendimento das coisas e assim orientar sua conduta. Kant referia-se à importância da busca do “esclarecimento”, que segundo ele é a condição para sair da menoridade e ganhar o mundo. É a isso que também podemos dar o nome de autonomia responsável. 
Abelhas e formigas têm uma preocupação instintiva com o coletivo. A espécie humana é mais complicada. 
A espécie humana é formada por indivíduos fracos em sua anatomia. Não é difícil encontrar na natureza seres muito mais bem dotados do que nós, animais com vantagens competitivas como a força, a velocidade, o olfato, a visão, a capacidade de voar ou de permanecer muito tempo sem respirar ou comer. O Homem não tem nada disso, então descobriu cedo que sua força só pode ser retirada da coletividade. Podemos até encontrar alguns ermitões bem-sucedidos, mas em geral nos comportamos como seres coletivos, pertencemos à grei, ao bando, ao rebanho – ou, como parece melhor, à sociedade. 
Mas não somos os únicos. Há centenas de outras espécies em sociedades muito bem estruturadas, e que dependem delas para continuar vivendo. Entre os insetos – aliás, os mais bem adaptados animais deste planeta – encontramos vários casos, como as formigas e as abelhas, apenas para ficar nos exemplos que todos conhecem. Entre elas não há hierarquia, apesar de haver divisão de trabalho, e não há recompensas pela produtividade nem punições pela falta dela. A preocupação com o interesse coletivo é instintiva. Cada indivíduo carrega em si a certeza de que sua participação individual é o melhor para a sociedade e para si mesmo. A força dessas espécies é a soma das ações individuais. Sem elas, desapareceriam. 
A espécie humana é mais complicada, pois cada pessoa, ao executar uma ação, leva em consideração as ações dos demais. Não faz como a formiga, que tem certeza que as ações das demais serão tão colaborativas quanto a sua. A espécie humana joga com as probabilidades. 
O certo – quem diria… – é não estar nem aí! 
Isso é tão forte que gerou uma teoria científica notável, a Teoria dos Jogos. Ela foi concebida pelos matemáticos Oskar Morgensterns e John Von Neumann, mas se tornou famosa após os trabalhos de John Forbes Nash Jr., cuja história foi transformada no filme Uma Mente Brilhante (direção de Ron Howard, 2001). Trata das opções que cada pessoa tem ao tomar uma decisão e praticar uma ação individual. Resumindo, a pessoa sempre pode fazer algo de acordo com a expectativa do conjunto, ou pensar apenas em seu próprio interesse. No primeiro caso estará “colaborando”, no segundo estará “desertando”, o que é especialmente preocupante quando cria prejuízo ao conjunto. 
Tomando de novo o mais simples dos exemplos, se eu não sujar o chão, estarei colaborando; se sujar, estarei desertando. Mas se eu achar que a maioria das pessoas vai desertar, passo a achar que minha colaboração terá pouco valor. Então eu deserto também. Está claro que se todos pensarem assim, o mundo será um lugar cada vez mais difícil de se viver. O empresário sonega impostos porque considera que o governo cobra impostos em demasia. O governo cobra muitos impostos porque leva em consideração que a sonegação existe e continuará existindo.
Teríamos que aprender com as formigas e com as abelhas. O certo seria eu não estar nem aí com as ações das demais pessoas. Mas não por ser alienado, e sim por ter a convicção de que essas ações serão as mais corretas, e que condizem com meu entendimento maduro do mundo, meu “esclarecimento”. Ocorre que esse tipo de ação consciente invariavelmente beneficia o conjunto, o que certamente reverte a meu favor. O círculo se fecha.
Mas o Homem não é um inseto. Tem um cérebro, um órgão espetacular que cria alternativas infinitas. Nessa criação, o cérebro às vezes complica. Portanto, é preciso parar e pôr a bola no chão: dependemos do amadurecimento da sociedade, o que por sua vez demanda que cada indivíduo saia da menoridade. Compreenda isso antes de mais nada para seu próprio bem, mas leve em conta que o mundo todo lhe ficará eternamente agradecido.

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