COMO DESENVOLVER A MAIS IMPORTANTE DE TODAS AS COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS

O essencial para ser feliz e realizado no trabalho está dentro de você, à espera de ser explorado. Saiba por onde começar essa busca
Por Marcia Di Domenico, da VOCÊ S/A
Muitas qualidades e competências são fundamentais para pavimentar o caminho até o sucesso profissional. Acima de todas, porém, existe uma habilidade da qual as outras dependem para serem colocadas em prática de forma efetiva: o autoconhecimento. Ele é indispensável para o profissional do século 21.
De acordo com o relatório mais recente do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho, aptidões como criatividade, colaboração, flexibilidade, pensamento crítico, capacidade de trabalhar sob pressão e resolver problemas complexos serão obrigatórias para evoluir na carreira daqui para a frente.
E o autoconhecimento é o ponto de partida para o desenvolvimento dessas e outras soft skills, como são chamadas as habilidades comportamentais. Não que algum dia ele tenha deixado de ser importante.
Mas as transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando e as demandas das novas gerações de profissionais — trabalho remoto, freelancer e sem carga horária fixa, por exemplo — cada vez mais vão exigir boa capacidade de gestão de si próprio.
“A responsabilidade pelos rumos da carreira está mais do que nunca nas mãos do indivíduo e menos sob responsabilidade da empresa”, afirma Wilma Dal Col, diretora do Manpower Group.
“Ampliar a visão de si mesmo dentro e fora do ambiente de trabalho permite fazer escolhas mais alinhadas com o que você quer para a vida.”   
O problema é que a maioria das pessoas não tem boa percepção de si mesma. Foi o que descobriu a psicóloga organizacional Tasha Eurich no livro “Insight — Por que não nos conhecemos tão bem quanto pensamos e como ter clareza de quem somos ajuda a alcançar o sucesso na vida e no trabalho” (numa tradução livre; ainda sem edição brasileira).
Tasha ouviu quase 5 000 pessoas e descobriu que apenas de 10% a 15% acreditam se conhecer bem. Um índice preocupante, já que mais autoconhecimento está associado a índices mais elevados de satisfação no trabalho e nos relacionamentos, produtividade, autoconfiança e felicidade, além de menos estresse, ansiedade e depressão.
As etapas da jornada
Alguns têm interesse natural por si mesmos e fazem da busca pelo autoconhecimento uma constante na vida. Outros podem ser surpreen­didos por alguma situação difícil envolvendo saúde, dinheiro, família ou trabalho que os leve a querer ver sentido e encontrar saídas para o problema.
“Ao mesmo tempo, a rotina automatizada, o excesso de estímulos no dia a dia e a ideia de que é preciso acelerar para se adaptar a tantas mudanças não poupa quase ninguém e leva à perda de consciência da própria vida e do que é preciso de fato para se sentir realizado”, afirma Edwiges Parra, psicóloga organizacional, coach executiva e fundadora da Emind Mente Emocional.
Resultado: uma multidão de seres desconectados de quem são, do que estão fazendo aqui e do que desejam. Conhecer a si mesmo é uma investigação que tem início, mas nunca acaba.
A seguir, mostramos quais são as cinco principais etapas para conhecer a si mesmo.
1. Faça as perguntas certas
O primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida é fazer questionamentos do tipo: “Estou feliz fazendo o que faço?”, “Que atenção estou dando à saúde e a meus relacionamentos?”, “O que me dá prazer hoje?”, “Quanto espaço estou reservando para isso no meu dia a dia?”, “Preferia estar fazendo outras coisas?”, “O que me deixa desmotivado?” O objetivo é conectar-se, focar o que está acontecendo no presente e detectar possíveis conflitos e fontes de insatisfação.
Mas vale saber que não é preciso estar passando por uma crise para decidir buscar o autoconhecimento — ao contrário, saber mais sobre si mesmo é uma forma de evitar que a crise apareça.
Nesse exercício, a psicóloga Tasha Eurich sugere que evitar se perguntar o porquê — por exemplo, “por que não consigo me dar bem com meu chefe?” ou “por que insisto em procrastinar?” — pode ser produtivo.
Ela explica: “Primeiro, porque dificilmente se chega a respostas úteis, já que o mais provável é que, inconscientemente, acabemos ‘inventando’ explicações que nos pareçam satisfatórias”, diz.
“Além disso, tentar entender os porquês tende a gerar pensamentos ruminativos, que levam mais para o passado do que ajudam a entender o que está ocorrendo no presente. É por isso que pes­soas com perfil muito analítico tendem a sofrer mais de ansiedade e depressão.”
Do escritório para a praia
O empresário Felipe Arias, de 36 anos, passou por uma baita crise existencial até chegar aonde sempre quis estar. Advogado de formação, ele se especializou no mercado imobiliário e já atuava havia dez anos na área quando decidiu largar tudo para empreender.
No último emprego antes de pedir demissão, há três anos, ganhava muito bem e tinha prestígio, mas, à medida que a carreira prosperava, sentia que estava cada vez mais se desconectando de tudo o que o fazia feliz: natureza, vida simples, praia, surfe e amigos por perto.
Para piorar, as relações no escritório eram péssimas, era obrigado a vestir terno e proibido de usar barba. “Eu me sentia um peixe fora da água. Mantinha um frasco de protetor solar na gaveta do trabalho e cheirava quando queria relaxar e me sentir mais perto da praia.”
Meio que como uma terapia, Felipe começou um blog em que publicava histórias de gente que havia abandonado tudo para viver de forma mais autêntica. “A ideia era tomar coragem para eu fazer o mesmo.”
Foram quatro anos tocando o site paralelamente à vida no escritório, e ele chegou a fazer viagens bate-volta até o litoral para entrevistar personagens antes de voltar para o expediente em São Paulo.
“Escrever foi o que me salvou.” Felipe foi conhecendo mais gente, o projeto se desdobrou para uma linha de camisetas e convites para organizar eventos que reuniam música, arte e pé na areia.
Até que ele tomou coragem para entregar o crachá, vender tudo o que tinha e investir na Lar Mar, misto de loja, bar e espaço para eventos na capital paulista.
Hoje Felipe vive como quer: “Trabalho descalço, conecto pessoas, promovo o trabalho de artistas e vejo sentido no que faço. E ainda ganho mais dinheiro do que antes”.
2. Peça feedback
Somos o resultado da soma do que sabemos sobre nós mesmos com a maneira como o mundo (formado por nosso círculo de relações pessoais e profissionais) nos enxerga.
Dar ouvidos ao feedback externo, portanto, leva a uma consciência maior de quem somos — afinal, todos temos pontos cegos na personalidade, que dificilmente enxergamos sozinhos.
Além disso, o exercício nos torna mais empáticos, ou seja, capazes de compreender o outro e ver as coisas pela perspectiva dele.
Observar nossas reações diante da opinião de terceiros também é parte da autoanálise e geralmente revela bastante sobre nós.
Mas é importante acolher a visão do outro e olhar para si mesmo com menos julgamento e mais curiosidade e gentileza, tendo em mente que não é porque você age de determinada maneira hoje, por mais nociva que seja, que precisa ser assim para sempre.
“Pensar desse modo diminui o impacto negativo que você gera sobre si mesmo”, diz a coach e psicóloga Edwiges Parra.
3. Defina o que precisa mudar
Com uma visão mais nítida de quem você é, do que deseja e de como vem agindo, é mais fácil definir quais aspectos deveriam ser desenvolvidos ou modificados no comportamento ou na rotina.
Nessa fase, prepare-se para analisar hábitos, reações, convicções e modos de realizar suas tarefas. Questionar e se desapegar de atitudes e mentalidades que se tornaram padrões e já não servem a seu momento atual ou à meta que está buscando tem o  mesmo efeito de tirar obstáculos do caminho de sua evolução.
Observar se seu “sistema operacional” interno possibilita, por exemplo, perceber se precisa mesmo madrugar para frequentar a academia todo dia (e morrer de sono antes do fim do expediente) ou se dormir mais e malhar à noite não o deixaria mais bem disposto e produtivo.
Também ajuda a descobrir se precisa aprender a ouvir mais, se vem guardando boas ideias para você por falta de autoconfiança ou se está deixando de lado a vida social em nome da profissional.
Em resumo, se está levando uma vida que faz sentido. Escolha uma meta por vez e trabalhe nela, celebrando seus avanços e avaliando o impacto real na rotina, em vez de querer mudar a vida inteira de uma vez — e acabar se frustrando e voltando à estaca zero.

Procuram-se líderes mais humanos – por que o autoconhecimento é importante para a boa gestão

Um estudo, divulgado neste ano, em parceria entre a consultoria em desenvolvimento de lideranças Green Peak e a Universidade Cornell, ambas nos Estados Unidos, analisou a experiência, o estilo de gestão e os resultados de 72 executivos de empresas públicas e privadas e revelou o seguinte: os profissionais capazes de construir boas relações com e entre o time entregaram melhores resultados financeiros do que os que eram vistos como tiranos.
Entre as explicações dos pesquisadores, a habilidade de compreender como se dá a interação dentro do time e a consciência das potencialidades e fraquezas de cada um (incluindo a si mesmo) permitiria ao líder montar uma equipe equilibrada e produtiva.
Além disso, a curiosidade de olhar além das experiências pessoais e de se interessar pela realidade do cliente favoreceria a tomada de decisões assertivas e focadas em resultado.
Nas organizações, espera-se que o líder pratique e propague a cultura criando significados para os subordinados produzirem se sentindo engajados e valorizados em sua individualidade.
Ser acessível, saber se comunicar e agir com transparência — inclusive em relação ao que não sabe e precisa de apoio do time —, em vez de distribuir e fiscalizar ordens e processos, são atributos de uma gestão moderna e autoconsciente.
Porém, nem sempre há empenho por parte das chefias para olhar além de si mesmo, muito menos admitir a própria vulnerabilidade. Pesquisas mostram que, quanto maior o poder de um gestor, mais ele tende a superestimar suas capacidades (em comparação com a opinião dos subordinados).
Ainda assim, o futuro aponta para profissionais conscientes de que o aprimoramento como pessoa é condição para criar e inspirar culturas organizacionais mais saudáveis e estafes mais eficientes.
Em escolas de educação executiva de referência no mundo, como Harvard, Stanford e Yale, a arte vem sendo usada há algum tempo como recurso na formação desse tipo de liderança.
A ideia não é exatamente usar pintura, escultura, teatro e música de forma lúdica ou para entretenimento, mas como objetos de análise e interpretação para levantar discussões sobre ética, racionalidade, inovação e liberdade.
“A arte estimula novas formas de pensar, permite olhar as situações além do óbvio, desenvolver pensamento crítico e resgatar valores humanos, como generosidade, respeito e sensibilidade, tão importantes nos ambientes de trabalho”, explica o professor e pesquisador Ricardo Carvalho, especialista em arte e gestão da Fundação Dom Cabral.
4. Escolha seus recursos
A busca por autoconhecimento é pessoal e intransferível, mas contar com ajuda profissional durante o percurso, em vez de dar esse mergulho por conta própria (ou com auxílio de livros e aplicativos apenas), faz diferença.
É mais ou menos como aprender a tocar um instrumento: você até pode conseguir sozinho, mas talvez demore mais e deixe de absorver lições importantes de quem tem mais experiência do que você no assunto.
Seu perfil e suas metas individuais devem orientar quais estratégias e ferramentas usar para descobrir mais sobre si mesmo. O coaching é uma alternativa quando o foco das mudanças é a carreira.
Se a queixa for uma rotina desorganizada e improdutiva, dificuldade para se adaptar a mudanças no trabalho — como explorar com mais profundidade seus talentos ou organizar a vida financeira —, cliente e coach podem trabalhar juntos para detectar possíveis obstáculos, traçar metas e avaliar sua evolução ao longo das sessões (de dez a 15, em média).
É certo que não dá para evitar que dramas da vida pessoal afetem o dia a dia profissional e vice-versa, mas, quando os conflitos internos têm mais a ver com questões emocionais e menos com a performance no trabalho, o melhor é considerar a psicoterapia.
Os prejuízos emocionais (tristeza, impaciência) e cognitivos (falta de foco, lapsos de memória) desencadeados por uma separação ou uma doença na família impactam a rotina no escritório, mas devem ser tratados no consultório do psicólogo ou psiquiatra. Questões como assédio e bullying também são caso de psicoterapia.    
Meditar, praticar esportes, manter um hobby ou atividade que tragam prazer, e cuidar das relações próximas são estratégias que, além de aliviar tensões do dia a dia, favorecem a conexão consigo mesmo e com os outros e ajudam a compreender nossos padrões de pensamento e de comportamento.
  
Propósito e autonomia
O conflito da professora de marketing digital Vanessa Kym, de 36 anos, ao pedir demissão de seus últimos empregos era o mesmo de muita gente: trabalhar com o que gosta ou ganhar dinheiro? Vanessa tinha estabilidade e boas avaliações, mas estava infeliz.Pesavam as muitas horas por dia na função, o fato de não conseguir ver amigos e família, episódios de assédio moral e sinais de alerta da saúde, como estresse, ansiedade, enxaqueca e gastrite. O preço era alto demais e ela decidiu que tinha de tomar as rédeas de sua vida profissional. Um curso de liderança feminina abriu a cabeça para as armadilhas em que ela não queria mais cair — fazer concessões demais, enxergar o trabalho como a parte mais importante da vida, priorizar cargos em vez de satisfação, se identificar com o trabalho e descuidar da saúde e dos relacionamentos — e trouxe mais segurança de estar no caminho certo. Respondeu a um anúncio para dar aulas e acabou se encontrando — hoje leciona na Digital House. Além de se sentir realizada, consegue conciliar o emprego de carteira assinada com palestras e consultorias para marcas.
Recentemente, recebeu proposta de uma multinacional francesa (trabalhar com franceses era, até então, um sonho de carreira), com salário três vezes maior do que o do último emprego, mas dispensou a vaga ao descobrir o que seria esperado dela: disponibilidade quase total, inclusive nos fins de semana.
“Estava tecnicamente preparada, mas seria voltar àquela espiral de trabalho que não quero mais. Sucesso, para mim, é escolher os projetos em que desejo trabalhar, e hoje posso fazer isso.”
Começando do zero
Se mudanças de vida vêm pela dor ou pelo amor, no caso da empresária Patrícia Lima, de 40 anos, a reviravolta teve mais a ver com o segundo porque se deu depois do nascimento da filha, hoje com 6 anos. Patrícia comandava há mais de uma década uma publicação de referência no mercado de moda e tinha rotina de workaholic. Pretendia retomar a rotina logo depois de dar à luz e chegou a levar o berço ao escritório, mas nunca o usou. A maternidade mudou tudo e o trabalho com moda foi perdendo o sentido.
“Tinha orgulho da minha trajetória, mas não do legado que estava deixando para o mundo que minha filha encontraria no futuro.” Patrícia se refere à natureza efêmera desse mercado, com lançamento de coleções a cada quatro meses e estímulo ao consumo excessivo.
Olhando para dentro e se questionando, viu que queria se lançar em algo novo, mas sem jogar fora o conhecimento que tinha acumulado. Mais uma vez a maternidade trouxe o insight: enquanto amamentava, Patrícia parou de usar maquiagem por medo do contato com a pele do bebê.
Pesquisou e viu que não havia no Brasil produtos desse tipo com uma pegada natural, sem tanta química. E assim nasceu a Simple Organic, marca de maquiagens orgânicas e veganas, depois de quase dois anos de pesquisas e testes. Houve quem a tachasse de louca por trocar um negócio certo por algo desconhecido no país na época.
Esse, porém, foi um dos principais argumentos da decisão. “Não queria ir pelo caminho mais fácil, de seguir a concorrência e apenas fazer melhor aquilo que alguém já fazia.
Queria criar alguma coisa com identidade e entregar uma mensagem positiva, de equilíbrio, que era também minha busca naquela nova fase da vida.” Foto: Eduardo Marques
5. Repita o ciclo
Sem pressa
Há cerca de quatro anos, quando já ocupava a posição que tem hoje na Wilson Sons, empresa do setor de logística portuária e marítima, a supervisora de agenciamento Michelle Bonaparte, de 35 anos, recebeu a proposta para assumir a coordenação de uma filial da companhia, o que representaria um salto na carreira e um salário pelo menos 50% maior. Os olhos brilharam, mas, depois de uma autoavaliação de seus pontos fortes e fracos, ela sentiu que não tinha o conhecimento técnico necessário para a função e acabou declinando sem peso na consciência. Sua chefe na época achou a decisão madura e aceitou.
Recentemente, um novo desafio exigiu mais esforços de adaptação: Michelle foi designada para assumir uma gestão descentralizada, passou a liderar uma equipe maior e a se dividir entre duas cidades, Santos e Rio de Janeiro.
“Aprendo todos os dias a trabalhar minha tendência centralizadora, já que preciso delegar e confiar.” Bastante interessada em autoconhecimento — nessa busca, ela se apoia na filosofia contemporânea, na meditação e na espiritualidade —, Michelle conta que, se aquela mesma promoção viesse hoje, aceitaria.
“Acumulei experiência, tenho mais maturidade e me sinto mais segura. Tudo tem seu tempo.”

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